ENTREVISTA COM
HERALDO DO MONTE

        Que alegria para mim foi poder fazer esta entrevista, Heraldo e sua esposa Lourdes são pessoas  encantadoras! Heraldo conta, num clima delicioso, o que fez, o que tem feito e o que acha de música.

MIB- Como você começou seus estudos de música?

Heraldo- Foi na Escola Industrial de pernambuco. Tinha uns 9 anos e a escola era período integral, entrávamos de manhã e saíamos à noite. Comecei a estudar teoria lá, solfejo, etc...

MIB- E já começou com o violão?

Heraldo- Não, meu primeiro instrumento foi o clarinete, que era o instrumento que faltava na banda de música da escola. Fiquei um mês sem conseguir tirar som do instrumento, e o professor que era fagotista da sinfônica reclamando, até que dei a clarineta para ele tocar e ele descobriu que o instrumento estava entupido, coisa de outro aluno que de sacanagem tinha posto papel dentro. Depois disso consegui tocar. Estudei tambem saxofone na Rádio Jornal do Comércio. O violão veio depois. Eu precisava de um instrumento harmônico, a clarineta só toca uma nota por vêz, mas não tinha dinheiro para um piano ou até mesmo o acordeão, eram instrumentos caros, então resolvi tocar mesmo violão.

MIB- Com quem você estudou violão?

Heraldo- Eu não tive professor, fui auto-didata. Como não tinha professor de violão, resolví estudar o método para clarinete no violão, que tem algumas similaridades, a nota mais grave do clarinete e a do violão são a mesma, o mi grave. Eu montava os acordes por dedução, calculando as notas...

MIB- Como foi que você se profissionalizou?

Heraldo- Nunca tive a pretenção de ser músico profissional, até que um cantor me chamou para acompanhá-lo em uma boate do recife. Me lembro que eu ia ganhar em uma semana o que ganhava em um mês do meu trabalho normal, então aceitei ir.

MIB- Como você veio parar em São Paulo?

Heraldo- Fui convidado, quando já estava tocando guitarra, para fazer parte do grupo do pianista e organista Walter Wanderley, que tinha um quarteto que fazia muito sucesso, ao estilo de George Shearing.

MIB- Ao estilo mesmo de George Shearing? Jazz, com harmonias sofisticadas, ect...? Fazia sucesso?

Heraldo- Claro. Antigamente não tinha essa coisa de "lei de mercado", nas paradas de sucessos, podiam figurar tando Nelson Gonçalves quanto o instrumental de Jacob do Bandolim. As pessoas compravam disco com o coração, não porque a propaganda diz que é bom, então a música não era "compartimentada". Essa separação não existia no Brasil, foi importada dos EUA.

MIB- Como seria possível reverter esse quadro de ignoância musical à qual a maior parte do povo Brasileiro está submetido?

Heraldo- Começa com escolaridade. A escolaridade dá à pessoa o senso crítico. sem escolaridade, você vai para o mais básico, o mais ralé. Sem escolaridade você só vai de diversão, não de cultura. A cultura deveria ser "curtida" pelas pessoas. A diversão deveria ser a cultura.

MIB-  Você já deve ter recebido inúmeros convites para ir morar no exterior. O Airto chegou a convidá-lo para estreiar o Wheather Report. Porque nunca aceitou?

Heraldo- Tem músico que é músico 24 horas por dia. Eu quando termino de tocar quero ser uma pessoa, curtir o que eu gosto, o Recife, a família, os amigos. Não gostaria de viver em excursões, morando em hotéis.

MIB- Você sempre lutou por melhores condições para o músico Brasileiro. Como era?

Heraldo- Quando eu trabalhava como músico de estúdio, não suportava que um colega fosse maltratado por ninguem. Se algum produtor fosse grosseiro comigo ou com algum outro músico, pegava minha guitarra e saía do estúdio. Uma vez tentamos fazer uma greve, para melhorar o cachê que andava meio baixo. Fomos à Ordem dos Músicos do Brasil, falamos com o presidente da ordem que disse que não era para fazer greve, senão nós iriamos prejudicá-lo em Brasília. Ele então sugeriu uma epidemia repentina de gripe, e a maioria dos bons músicos ficaram com a gripe. Funcionou, mas depois disso, as gravadoras começaram a gravar os grupinhos de Rock para economizar. Eles não precisavam pagar os músicos, que tinham interesse em gravar e não viviam disso. Um enorme prejuízo para a qualidade da música Brasileira.

MIB- Como era trabalhar como músico de estúdio?

Heraldo- Não era um clima legal, as gravações normalmente eram feitas em um clima nervoso. Uma vez fui gravar em um estúdio bonito, todo acarpetado e o produtor, que não sabia o que queria, começou a gritar grosseiramente com os músicos. Eu então peguei o extintor de incêndio e escreví em todo o carpete!

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